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Rumo à Democracia Digital

Discurso proferido por Sua Excelência o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, durante sessão solene de abertura da Semana de Software Livre no Legislativo no dia 19 de agosto de 2003

Não devemos nos esquecer de que a cultura digital, que hoje estende a sua teia por todo o planeta, viveu momentos decisivos sob o signo do pensamento transformador – e mesmo sob o signo da utopia.

Basta lembrar a conquista contracultural do microcomputador. A contracultura se responsabilizou por trazer o computador do plano industrial-militar para o plano do uso pessoal, quebrando o monopólio da IBM na área da computação. O escritor Pierre Lévy falou, corretamente, em desvio contracultural da alta tecnologia, em "bricolagem high tech" em meio a grupos da "nebulosa underground", observando que "uma pitoresca comunidade de jovens californianos à margem do sistema inventou o computador pessoal".

Do mesmo modo, aconteceu uma espécie de migração contracultural das viagens de LSD para os laboratórios de alta tecnologia e para o sonho da realidade virtual. A Califórnia era, naquele momento, um centro da viagem contracultural e um centro de alta pesquisa tecnológica. E tudo se misturava: Janis Joplin e engenharia eletrônica, alteradores de estados de consciência e programadores de computador. Foi assim que Stewart Brand, organizador do grande festival psicodélico de 1966 em São Francisco, acabou indo parar no "Media Lab" do Instituto de Tecnologia de Massachussets, trabalhando ao lado de Nicholas Negroponte.

A verdade é que, naquela época, alguns militantes da contracultura passaram a ver, no computador, um instrumento revolucionário de transformação social e cultural. Podemos falar até mesmo de uma espécie de contraculturalismo eletrônico, onde se inclui um livro como "Computer Lib" de Ted Nelson, um jovem criado nas águas do rock e do underground. A supracitada vitória contra a centralização tecnológica em mãos da IBM se deu nesse contexto. Foi uma conquista da cidadania. E foi também nesse contexto impregnado de utopismo contracultural que surgiu o "Apple", o modelo por excelência do computador pessoal.

Ou seja: o que vemos hoje no mundo, na dimensão informática, digital, tem o seu ponto de partida no movimento libertário da contracultura. Nada mais natural, portanto, dessa perspectiva político-cultural, do que a movimentação em favor do software livre, a fim de viabilizar pragmaticamente mais um projeto de nossas utopias realistas.

É uma posição estratégica. O software livre será básico, fundamental, para que tenhamos liberdade e autonomia no mundo digital do século 21. É condição "sine qua non" de qualquer projeto verdadeiramente democrático de Inclusão Digital.

Não podemos nos contentar em ser eternos pagadores de royalties a proprietários de linguagens e padrões fechados. O software livre é o contrário disso. Permitirá a inclusão massiva das pessoas. Permitirá o desenvolvimento de pequenas empresas brasileiras, das nossas futuras "soft houses". E poderá gerar empregos para milhares e milhares de técnicos.

Por tudo isso, o Ministério da Cultura do Governo Lula pensa que o Brasil deve se preparar, concretamente, para se tornar um pólo do software livre no mundo. Este é o caminho para o domínio inteiro da cultura digital. Este é o caminho para a inclusão de todos os brasileiros no universo cultural contemporâneo.

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