Justiça Federal se prepara para integrar dados processuais utilizando software livre
Entrevista com Lúcio Melre da Silva, secretário de tecnologia da informação e das comunicações do STJ
Está bem próximo o dia em que qualquer pessoa poderá consultar o andamento de um processo judicial pela internet, com apenas alguns cliques, independente do local do país onde esteja.
Os dados processuais de toda a Justiça Federal serão em breve integrados por meio de um sistema desenvolvido em software livre e estarão disponíveis na internet para consulta pelos cidadãos.
Nesta entrevista, o secretário de tecnologia da informação e das comunicações do STJ, Lúcio Melre da Silva, explica o projeto e sua importância para o Judiciário. O chefe da seção de integração do STJ e gestor técnico do sistema, Luís Otávio Gouveia, fala ainda sobre o uso do SL e sobre o porquê da escolha dessa plataforma.
SLGOV.BR – O STJ prepara um portal que pretende integrar os órgãos da Justiça Federal. Que projeto é esse?
Melre – Antes de explicar o projeto, é importante
passar uma visão de como funciona o Conselho da Justiça Federal, CJF,
que é presidido pelo mesmo presidente do STJ, Ministro Edson Vidigal. O
CJF é responsável, constitucionalmente, pela supervisão administrativa
e orçamentária da Justiça Federal de primeiro e segundo graus, que
abrange os cinco Tribunais Regionais Federais e respectivas Seções
Judiciárias. O TRF da 1ª região, sediado em Brasília, possui 14 Seções
Judiciárias vinculadas: Minas Gerais, Bahia, Piauí, Maranhão, Pará,
Amazonas, Roraima, Amapá, Rondônia, Acre, Goiás, Tocantins, Mato Grosso
e Distrito Federal. O TRF da 2ª região, sediado no Rio de Janeiro
abrange as Seccionais do Rio de Janeiro e Espírito Santo. O da 3ª
região, em São Paulo, engloba São Paulo e Mato Grosso do Sul. O TRF da
4ª região, sediado em Porto Alegre, congrega os estados do Rio Grande
do Sul, Santa Catarina e Paraná. E finalmente, a 5ª região é composta
pelos estados de Alagoas, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do
Norte e Ceará. Esse tribunal está sediado em Recife.
SLGOV.BR – Então, o que é o projeto de integração e qual a intenção do STJ ao desenvolvê-lo?
Melre – Entre os muitos projetos de modernização do
STJ, conduzidos pelo ministro Edson Vidigal, está o de integração de
dados. Desde que foram criados em 1989, cada Tribunal Regional Federal
adotou soluções tecnológicas específicas. Não existe padronização, já
que cada tribunal utiliza bancos de dados e linguagens de programação
diferentes dos demais. Qual o impacto disso? Cada Tribunal e Seção
Judiciária disponibiliza informações na internet de modo não
padronizado, podendo causar confusão para o usuário. Esse projeto,
intitulado “Integração de base de dados do sistemas da Justiça
Federal”, permitirá a troca de dados entre os diversos Tribunais sem a
necessidade de mudanças nas plataformas tecnológicas hoje existentes.
Permitirá, ainda, que o cidadão possa entrar num portal único, que
apontará para onde o processo está tramitando. E toda essa solução está
sendo desenvolvida com a utilização do software livre.
SLGOV.BR – A que serviços os cidadãos, ou mesmo advogados, terão acesso utilizando este sistema?
Melre – Estamos desenvolvendo um protótipo. Num
primeiro momento, estará disponível a consulta processual por nome da
parte, número do processo, código da OAB e nome do magistrado, entre
outras palavras-chave. Qualquer um poderá consultar. Hoje já é possível
ter acesso a isso em cada um dos TRFs. Se você sabe que o seu processo
tramita no Tribunal Regional da 2ª Região, você entra no site da 2ª
Região e consulta o processo. Mas muitas vezes a parte não sabe onde o
processo está tramitando. Então, estamos construindo um “googlezinho”
(referência ao sistema de buscas na internet mais utilizado pelos
internautas). Isso é uma parte do projeto. Vamos tornar disponível,
também, o módulo “Rol de Culpados”, uma solução que foi desenvolvida
inicialmente no TRF da 4ª Região, em Porto Alegre, que consiste em
depositar, em um único local, informações sobre as partes em processos
criminais, de forma a permitir com exatidão a consulta à base de dados
de todos os estados da federação. Em princípio, esse módulo deverá
ficar restrito à Justiça Federal. Existe, ainda, o módulo “Emissão de
Certidões”, que permitirá a emissão de certidões negativas após
pesquisa a todas as bases de dados da Justiça Federal. Todo esse
trabalho está sendo coordenado pelo Ministro Ari Pargendler, que é o
coordenador-geral da Justiça Federal.
SLGOV.BR - Qual o módulo que está mais desenvolvido?
Melre – A consulta processual, pois hoje ela já existe
nos sites de cada um dos Tribunais Regionais. O que estamos fazendo é
colocar tudo isso num único veículo de entrada, em um portal. O
protótipo já está pronto, mas ainda não foi disponibilizado para o
público.
SLGOV.BR – Quem está conduzindo o trabalho?
Melre - Foi instituída uma comissão pelo Ministro
Presidente do STJ, Edson Vidigal, denominada SIJUS, formada pelos
Secretários de Informática do Conselho da Justiça Federal e dos cinco
Tribunais Regionais Federais. O STJ participa dessa comissão como
convidado. Essa comissão estabelece as prioridades a serem adotadas no
âmbito da Justiça Federal, e o projeto de integração foi uma delas. A
partir daí, foi criado um grupo de trabalho composto por técnicos,
representando cada um desses tribunais, que assumiu o desenvolvimento
da solução, utilizando uma metodologia de trabalho inédita dentro da
Justiça Federal. Os fóruns de discussão são feitos por meio de
vídeo-conferência e as pessoas contribuem sem precisar se deslocar para
Brasília. Com isso, os custos de desenvolvimento têm sido baixos. Temos
tratado esse sistema com muito carinho, não só porque é um projeto em
que acreditamos muito nos resultados, mas porque tem nos proporcionado
muito aprendizado e uma forma diferente de trabalhar. Estou no
judiciário há 20 anos, eu nunca vi um projeto dessa magnitude, sendo
desenvolvido por sete órgãos ao mesmo tempo, que são: STJ, CJF, TRFs da
1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª Regiões. Esse projeto de integração é super
importante e num primeiro momento tem como escopo a Justiça Federal.
Dando certo, esse sistema deverá seguir também para as Justiças
Estaduais.
SLGOV.BR – Quais os softwares envolvidos?
Luís Otávio – Estamos utilizando apenas aplicativos em
código aberto, como a linguagem Java, no desenvolvimento das páginas
dinâmicas, e o XML. O servidor web é o Tomcat e a solução roda em Linux
e em Windows. O grupo de técnicos é formado por 18 pessoas, sendo 2 de
cada Tribunal e 8 do STJ. Disponibilizamos um repositório de códigos
(CVS) e um controle de versões, para que todos os envolvidos possam
depositar suas contribuições diretamente, com registro da última
operação feita e de quem a fez.
SLGOV.BR - É o primeiro trabalho de vocês com soluções não proprietárias? Qual o motivo dessa escolha?
Luís Otávio – Já utilizamos aplicativos livres no STJ,
porém esta é a primeira iniciativa de desenvolvimento em software
livre. A decisão de se adotar soluções não proprietárias foi baseada em
dois importantes aspectos. O primeiro é que a padronização da
plataforma permitiu a participação de todos os órgãos envolvidos no
desenvolvimento desta integração de bases, sem a necessidade de comprar
softwares e hardwares e sem incorrer em licitações, agilizando a
distribuição e o futuro uso do sistema por esses Tribunais. Um segundo
ponto importante é que essas plataformas, principalmente o Linux e o
servidor Tomcat, são leves e velozes, resultando em boa performance em
máquinas menos robustas.
SLGOV.BR – Muitas dificuldades na implantação desses projetos até agora?
Luís Otávio - Posso dizer que até agora as maiores
dificuldades apresentadas são a falta de domínio do Java e do XML pelos
técnicos do Judiciário e a coordenação de um grupo disperso pelo país.
Porém não tivemos necessidade de buscar apoio fora do Tribunal. Quando
necessitamos de profissionais com determinado conhecimento, buscamos
essa pessoa dentro dos Tribunais e estamos encontrando.
SLGOV.BR – Voltando à questão do uso de
software livre, ao adotar tal solução quais as vantagens que vocês
esperam oferecer ao usuário final?
Melre – Vamos fornecer para o usuário final um arquivo
em formato XML, que também é um padrão aberto. Ele poderá tratar esse
arquivo da forma que achar melhor. Um escritório de advocacia, por
exemplo, pode pegar o código desse sistema, alterá-lo e customizá-lo
para suas aplicações, deixando disponível as consultas na formatação
que melhor entender. Esse padrão vai ser adotado por todos que tiverem
interesse nesses dados. Fala-se muito na parceria público-privada –
PPP. Para esse projeto estamos adotando a terminologia PPC – Parceria
Público Cidadão, pois a nossa intenção é liberar as consultas para a
comunidade em geral, bem como seus códigos, para que as pessoas
contribuam com o aprimoramento desse código, agregando funcionalidades.
Não podemos exigir que o usuário use determinado software, por isso o
padrão é livre.